Vagner: uma história de perseverança nos infantis do Anadia

Um jovem atleta, um sonho constantemente adiado por burocracias que pareciam intransponíveis, e uma estreia pelo clube onde treinou durante dois anos com dois golos na vitória sobre o Carqueijo. Podia ser o enredo de um filme, mas aconteceu bem perto de nós.

Vagner partia para o terceiro ano ao serviço da geração de 2005 do Anadia Futebol Clube, mas não tinha, ainda, somado qualquer jogo oficial pelo clube. Natural de S. Tomé e Príncipe, o jovem encontrava nas formalidades burocráticas um entrave à sua utilização em competições oficiais. Contudo, isso não foi suficiente para o fazer desistir do seu sonho. Mesmo sem poder jogar, nunca descurou os treinos e acompanhava a equipa nos jogos.

“Ainda mal conhecia os miúdos e, logo no início do ano, tivemos um jogo-treino. Durante o jogo, o Vagner começou a queixar-se das chuteiras e, como estava calor, pensei que isso pudesse ter alguma influência. Mas, quando o chamei à minha beira, começou a chorar. Pedi que se animasse e disse-lhe que ia jogar e fazer muitos golos. Foi quando ele me disse que não podia jogar”, explica Fábio Barros, Fabeta para o mundo do futebol, treinador do escalão de infantis do Anadia e defesa-central da equipa sénior do clube, que teve participação ativa e crucial no desfecho positivo desta história.

A reação de Vagner deixou o treinador intrigado. “Perguntei-lhe porque dizia aquilo. Garanti-lhe que ele era um menino igual aos outros e que teria as mesmas oportunidades. Mas ele respondeu-me que não estava inscrito e que não havia possibilidade de participar nos jogos”, revela.

Confrontado com a situação, Fabeta procurou um caminho que permitisse “dar uma alegria ao Vagner”. “É um menino que tem fortes carências sociais e a situação dele marcou-me. Treina todos os dias, faça chuva ou sol. Este é o terceiro ano do miúdo no Anadia e tinham havido algumas confusões burocráticas que não tinham permitido a inscrição, principalmente por ser de S. Tomé e Príncipe e a inscrição ser diferente”, aponta.

Focado, o técnico não perdeu tempo e a sua ação, rápida e altruísta, acabou por trazer frutos. A situação foi ultrapassada, e a inscrição do jogador regularizada, para regozijo de treinador e atleta. “Senti-me extremamente feliz. Saber que pude marcar a vida de um menino que não tinha tido, ainda, oportunidade de ser plenamente feliz no clube é muito gratificante. Vê-lo jogar, marcar o primeiro golo e perceber a felicidade dele deixou-me muito contente”, garante.

Essa é, aliás, uma das grandes responsabilidades que os clubes devem ter, na ótica de Fabeta. “Esta preocupação social é fundamental”, dispara, principalmente por se tratar “de jovens, que devem ser vistos por igual, independentemente da qualidade que apresentem”. “Todos têm um sonho, que é jogar futebol, e não podemos distingui-los pelo estatuto social ou pela qualidade individual. Os clubes devem ter isso em atenção. Não há nada que pague o facto de vermos um miúdo feliz”, completa.

Com passagens pelas principais divisões da Grécia e do Chipre, e um vasto currículo futebolístico, Fabeta vive a primeira experiência como treinador. Admite que não esperava passar por uma situação semelhante, mas assegura sentir-se realizado pela ação e pelos valores adquiridos. “Nunca pensei viver isto na minha primeira experiência como treinador. Quando tiramos o curso de treinador, abordamos a questão da integração social e a sua importância, mas acabamos por não esperar que algo como isto aconteça. Falamos e tentamos preparar situações imprevisíveis, mas a verdade é que isto faz-nos crescer, ganhar experiência e adquirir valores que nos marcam para a vida”, remata.

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19 de Janeiro de 2017
Pedro Fernandes
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