Planos de contingência, distanciamento e etiqueta respiratória. O regresso do futebol que anima os mais novos

Em circunstâncias normais, aos 17 anos Pedro Monteiro estaria, por esta altura do ano, a fazer o balanço da temporada transata e a preparar-se para a última etapa do seu processo de formação. Só que 2020 não tem sido um ano como os outros, culpa de uma pandemia que nos atormenta já lá vão mais de três meses e que obrigou à suspensão temporária de toda a atividade desportiva no país. “A saudade era enorme”, admite o jovem da AD Taboeira, aliviado por “o pior já ter passado, que era a parte de não poder jogar”.

Foram mais de três meses de espera até poder voltar ao Complexo Desportivo do clube aveirense. “Tempos difíceis”, desabafa Pedro, que procurou ocupá-los com os planos de treino desenhados pelo clube, os quais foi cumprindo à risca, em casa. “Estive ativo quase todos os dias. Eu e alguns colegas chegávamos a fazer videochamadas para fazermos os exercícios em conjunto”, recorda. Mesmo assim, havia todo um outro mundo em suspenso, que nem a tecnologia mais avançada foi capaz de aclarar. Faltava a presença, o sorriso, um simples aceno. “Para além das pessoas com quem temos mais ligação, há sempre aqueles amigos do futebol que não se ligam tanto às redes sociais. Foi muito bom voltar a vê-los. Conversámos sobre o que fizemos na quarentena e como tem sido na casa deles”, conta.

Para Pedro Monteiro, voltar a calçar as chuteiras e pisar a relva sintética foi como o libertar de uma angústia. “As saudades eram muitas”, e nem o facto de o regresso se fazer sob controlo apertado o desanima. “É sempre estranho treinar em grupos e com menos pessoas. Os treinos têm sido mais físicos, porque não pode haver contacto, mas fazem-se bem. É sempre bom voltar”.

Em casa, tem aproveitado para passar mais tempo com a família, algo que era difícil de conseguir nos tempos pré-pandemia, e vai-se habituando a um novo método de ensino, que o obriga a um esforço extra. “É muito difícil aprender em aulas online, mas temos de fazer um esforço. Não tive aulas presenciais, mas tem-se feito bem”, diz o estudante do 10.º ano do curso de Eletromecânica.

Chegados ao tempo de vislumbrarmos o futuro, serão as nossas ações que irão determinar quão duro e restritivo ele poderá ser. O futebol, esse, seguirá o seu caminho, acredita o jovem. “Consoante o que tenho visto no futebol profissional, pode ser tranquilo passarmos a próxima época. Com as devidas normas acho que conseguimos”. Quanto ao nosso quotidiano, dependerá muito das ações de cada um a convivência equilibrada com o novo coronavírus. Aos 17 anos, “quase na maioridade”, Pedro garante ter “mentalidade para perceber que isto é muito grave”. “Isto” é uma pandemia, que não dá sinais de abrandar, em Portugal e no mundo. “É preciso ter cuidado”, avisa.

Adesão dos mais novos tem sido positiva
O confinamento potenciou as saudades da bola, do toque, da textura da relva pisada pelas chuteiras e do som das passadas dentro de campo. Aos poucos, os jovens e os seus treinadores começam a abrir uma porta que se fechou. À semelhança da AD Taboeira, clubes por todo o distrito de Aveiro encontraram soluções para retornar à modalidade de forma segura.

Para que isso seja possível, o primeiro critério a ser respeitado passa por cumprir todas as normas da Direção-Geral da Saúde (DGS). Dado o primeiro passo, o futebol está de volta para os mais jovens. Na ADF Anta/Baixinhos, desde a última semana, os jovens treinam, individualmente e em simultâneo, num campo em que é possível cumprir todas as normas de distanciamento “segundo a normativa 30 da DGS”, explica Eliseu Pinto, coordenador da formação do clube de Espinho.

“A primeira medida tomada foi entregar ao município o plano de contingência, que foi aprovado. Todo o complexo está sinalizado, com um corredor de entrada e outro de saída, e os pais dos miúdos têm de usar máscara. Assim, com alguns condicionalismos, conseguimos iniciar os treinos individualizados para 80 jovens, dos traquinas B até aos juvenis”, explica o dirigente, revelando que “a adesão foi muito superior às expetativas”. “Até tivemos de recalendarizar alguns treinos para o fluxo de atletas se manter devidamente controlado”, afirma.

No GD Gafanha há uma nova vitamina
Chama-se “Vitamina G” e é o projeto dinamizado pelo setor de formação do GD Gafanha para promover o retorno à atividade física e desportiva dos seus jovens atletas, cumprindo com todas as normas de segurança, distanciamento social, higiene e conduta respiratória. Segundo Pedro Chaves, responsável pela formação do GD Gafanha, o objetivo dos treinos individuais passa por “melhorar a técnica individual, aptidão, habilidade, capacidade, competências e o estado físico e psicológico dos atletas”. “Trata-se de um treino específico de técnica individual e condição física. É um projeto que vamos tentar desenvolver no futuro, nomeadamente com campos de férias e nos períodos de interrupção escolar”, revela o dirigente.

O coordenador admite que “não foi fácil fazer o plano de contingência, e o primeiro esboço até teve de ser alterado”, mas diz-se surpreendido pela forma como os jovens do clube aderiram à ‘Vitamina G’. “Numa fase inicial, tínhamos cerca de 20 inscritos, mas uma semana depois houve um acréscimo tremendo. Neste momento, estamos com cerca de 100 miúdos de todos os escalões, dos petizes até aos juniores”, sublinha.

Pedro Chaves considera que o feedback do regresso à atividade desportiva “tem sido positivo”, numa iniciativa “importante para os miúdos e para o clube. “Após tanto tempo de paragem, notámos diferenças nos atletas, mas o importante é que eles cheguem ao final do treino felizes e cansados, após uma sessão de 45 minutos. Isso é muito positivo”, conclui.

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27 de Junho de 2020
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